Campelo Costa
Atualizado: 20 de jan. de 2023
2017. O final deste ano varreu do nosso convívio, de nossa vista, amigos tantos feitos na largueza dos tempos. Desapareceram entre a tristeza dos que ficaram deixando vagos os lugares tão necessários à boemia desta terra luminosa e de mares tão verdes. Foi um desastre para as rodas festivas de um círculo amplo constituídos por vivas personagens públicas de nossa cidade hoje tão desfigurada, tão pobre.
Figura de uma geração marcada pelo inconformismo, pela rebeldia, de um humor feroz e demolidor construído nas asperezas de incontáveis batalhas travadas na afirmação da liberdade e do prazer. Só o afeto e o profundo respeito à vida humana digna forjaram as raríssimas qualidades dessa gente boa que povoou Fortaleza nesse meio século de vida plena de alegria e de conquistas.
Envolto já nessa saudosa memória confesso entre outras coisas: se me fosse devolvido o tempo reviveria com a mesma densidade todas as fases do meu passado. Desde a liberdade de menino solto, criado sem peias e amarras; Todas as chorosas paixões juvenis, até a boemia pesada curtida em nossos puteiros onde aprendi a dançar. Cometeria os mesmos erros e seguiria os mesmos caminhos. Caminhos mágicos, iluminado por incontáveis paixões, afetos e muitas descobertas.
Perdão se falo de mim. Isso tudo é pra firmar o meu desencanto pela perda e pela ausência dos que já foram. Eis o meu lamento. Ah, o tempo! "O inflexível tempo tanto quanto o amor é irmão da morte. Vai ceifando aspirações, anulando presunções, trazendo desalentos e só nos deixa na alma essa saudade do passado às vezes composta de coisas fúteis, cujo relembrar, porém, traz sempre prazer."
E assim se faz a vida. Com desalento e esperança, com recordações e lembranças, com tolices e coisas sensatas, com baixezas e grandezas, a espera da morte e da doce e amarga morte, madrasta dos aflitos e desesperados.
Pois bem! Apesar dessa tristeza apego-me as lembranças. Amparo-me nelas.
Não tenho como esquecer.
A poesia...
A cadência das músicas. As melodias cantadas precipitavam-nos numa espécie de êxtase em direção aos nossos destinos ou aquilo que nos prometia o mundo. Era um estado de espírito. Estávamos em sintonia com a vida, com o mundo. Tudo ao nosso redor irradiava o brilho intenso de esperança vindouras. Alguns instantes, breves, muitos breves, sonhamos com o êxito de nossas quimeras.
O amor e o encanto pontuavam a mágica atmostera daqueles tempos, daquelas noites, no fascínio de longas horas de intensa sedução sob o zumbido provocado pelas vozes e o tinir de copos e da zoeira que de tudo tomava conta. Tudo isso nos absorvia e se aprofundava em cada um de nós. Éramos fortes apesar dos limites e vivos demais para permitirmos o sonho morrer. Depois, Fortaleza nunca mais foi a mesma. Num mundo sem sonhos, sem rebeldia, ninguém se encontra nem enxerga a si próprio.
Fica-se encerrado dentro dos limites estreitos de regras simplistas e da mediocridade.
E assim, queimam-se, anulam-se o pensamento contestador, o sonho, a memória e a expressão das diferenças onde vicejam as artes, os artistas, a vida plena. Por aqui, sempre misturamos costumes, culturas, cavando o chão na procura da superação das incríveis divergências e diversidades existentes entre nós. Escapávamos das regras liberando nossas manifestações e energias ante as pesadas limitações do medo e preconceito.
Fortaleza brilhava, encantava e nos embriagava. Pelas calçadas, pelos bares. As mesas dos restaurantes. Nas salas de aula, nas assembleias, nas passeatas e nos protestos, ações vigorosas na fraternidade dos confrontos políticos. Não era apenas meia dúzia, mas dezenas, centenas de figuras de bem com a vida, pobres, fodidos, tudo misturado a discutir política e besteiras em noites sem fim. O nosso comportamento. O comportamento do artista, do rebelde é uma das variantes do gesto, da atividade, dos arroubos libertários e dos compromissos ideológicos expressos em palavras e ações.
Ninguém se perdeu. Restou-nos o refúgio da simplicidade e a beleza de uma vida livre. A faísca, contudo, persevera. O sol continua a caminho com o seu brilho duro. Ilumina e realça com as cores alegres e tremulantes dessa terra de luz em todos os instantes de nossas exaltadas expectativas mesmo sem alcance de qualquer triunfo e glória de nossas esperanças. Confesso, por fim: recinto-me da perda irreparável de quem queremos bem. Por outro lado, recinto-me também, da perda de identidade e do caráter de nossa cidade.
Desapareceram os lugares, os marcos referenciais, as pessoas e a sua importância na vida cotidiana. Fortaleza, hoje, tal e qual outros lugares, é apressada, fria na desolação e monumentalidade da metrópole que não para de crescer. Vazia, destacando-se daí as diferenças sociais e o conflito entre os seres humanos, seus ambientes e a desintegração de tantos indivíduos. Perdoem-me a digressão. Perdoem-me, não me contive e sinto irreparável necessidade de expressar dessa maneira a tristeza diante de tantas perdas.
Assim, dessa maneira incluo o camarada e amigo bom Francis Vale no elenco, no conjunto de figuras que nos deixaram tão de repente no final de 2017. Francis, cuja a memória presto as minhas homenagens e faço delas a minha louvação. Falar dele. Falar de Francis é reconhecer a sua importância no âmbito da produção cultural e do exercício político da cidadania nesse nosso rincão sagrado. Era um espírito vivo, envolvente e corajoso. Gozei da sua intimidade e bebi de sua sabedoria e lucidez em longas jornadas noite adentro e em inspirados e prazerosos momentos.
Certa vez, em sua manifesta inquietude jogou-me na cara a seguinte afirmação "somos todos repositórios parcelados do Augusto Pontes". Outro de nossos gurus que, lamentavelmente, se foi bem antes.
Conheci-o, como muitos outros, debaixo daquele vetusto mangueiral da Escola de Arquitetura ali pelas idos do caldeirão político nos pesados anos de chumbo. A Escola abrigou e foi um dos redutos de candentes motivações no surgimento de inúmeros talentos e vocações artísticas.
Francis Vale era por natureza um ser múltiplo. Exerceu com vigor sua vocação artística e de promotor cultural. Sempre tinha posições muito claras reveladas na sua indignação com a persistência da precária condição humana, por aqui, em nosso país e por que não no mundo.
Por outro ângulo doía-me, sempre me causava desconforto não poder ampará-lo em seus momentos de solidão e angústia de homem só em seus encontros consigo mesmo. E certo que "a dor é uma fonte inesgotável e inspiradora" na criação artística. De qualquer modo, o seu prematuro falecimento abre lacuna impreenchível em nosso pequeno mundo cultural. Guardarei para sempre momentos inapagáveis de minha memória a figura do Francis Vale. Por tudo o quanto eu sinto dedico a família ainda enlutada: Leny Rose, sua mulher e os filhos Gabriel e Isabel o meu carinho e afeto imorredouros.
A sua ausência deixa-nos mais pobres, entristecidos e vazios.
Campelo Costa
Amigo

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