Jefferson Albuquerque
Nos idos da década de 60, depois do golpe militar em 64, creio que em 1966, um grupo de universitários da UFC saiu pelo interior do Ceará de trem e em algumas cidades fizeram shows, cantaram, apresentaram exposições de arte. Chegaram ao Crato, ponto final do trem da REFESA, sua última parada. Entre eles estavam minha irma Ângela de Figueiredo e Albuquerque, meu futuro cunhado Paulo Lincoln Mattos e Francis Vale. Eram muitos, mas só me recordo destes três. Assim conheci o amigo Francis, que se destacava entre aqueles jovens universitários, que com sua arte já iniciavam uma fase de protesto artístico contra a ditadura militar. No ano posterior fui morar em Salvador para terminar o curso científico e fazer o vestibular de arquitetura.
Os anos passaram. Muitos daqueles jovens que participaram mais ativamente dos movimentos contra a ditadura, foram presos, torturados e alguns se exilaram. Em Salvador tive o mesmo destino, me envolvi com as manifestações de 68 na UFBA e nas ruas da cidade, entre um protesto e outro nossas vida tomaram novos e inesperados rumos...
Entre eles Francis Vale, mas como outros, como eu, não fomos para o exílio, resistimos no Brasil e pagamos alto preço por isto... Da Bahia para Fortaleza, de Fortaleza para Brasília, de Brasília para uma temporada entre Bolívia, Peru, Chile e Argentina tive voltar para o Cariri, no segundo semestre de 1973, depois de perseguições a alunos da UNB em Brasília, para escapar de nova prisão política. Foi neste período em que participei de um movimento cultural em Crato, no Grupo de Artes Por Exemplo, que através de Antonio Rozemberg de Moura (Rozemberg Cariri) e Jackson Bantim (Bola) reencontro
Francis Vale, para nunca mais, a partir daí, nos perdermos de vista.
Veio o movimento de cinema super 8, no Cariri e em Fortaleza, nas primeiras produções em 16 mm que começamos a lutar juntos pelo cinema no Ceará. Nós no Cariri e Francis em Fortaleza. Juntos criamos a ABD-CE, ao mesmo tempo em que ele participa da criação da Associação de Cinema de Fortaleza e inicia sua luta ativamente pelo cinema cearense. Por trás de toda política de cinema no Ceará existe contribuições do amigo Francis. Sua dedicação a causa o impediu muitas vezes de realizar seus próprios filmes, mas contribuiu e muito pelas produções dos amigos e no incentivo a criação dos festivais de cinema que acontecem no estado.
Inevitável que no decorrer de sua trajetória, onde o interesse de todos se ampliava nos debates e decisões, Francis que sempre lutou pelo coletivo, enquanto outros envolvidos trabalharam muito em causa própria, individual, encontra alguma resistência, daí as desavenças e divisões entre os protagonistas do cinema no Ceará. A produção cearense então passou a ser dividida em grupos bem distintos e com atritos entre eles. Como optei por morar no Sudeste meu contato com o cinema no Ceará passou a ser através do Francis, em quem sempre confiei plenamente. Onde quer que eu morasse, no Rio, em São Paulo, Brasília e Vitória sempre nos falávamos por telefone. Em nenhum momento me afastei do Francis ou tive reservas quanto a sua luta. Através dele me informava dos acontecimentos e recebia convites para participar de algumas atividades.
Assim em determinado momento estive no Cine Ceará, até quando ele se retirou; fiz direção de arte no seu filme "Pau Brasil' e quando criou o Festival de Cinema Digital de Jericoacoara me convidou sempre para participar, em diversas funções. Com este festival ele valorizou as produções digitais de todo o país e resgatou a história do Cinema Brasileiro através da exibição de clássicos do Cinema Novo e da reunião de grandes ativistas do cinema como Sérgio Santeiro, Silvio Tendler, Hermano Penna, o grande Afonsinho, Zeca Ferreira, o compositor e ator Rodger Rogério, Teti, Duarte Dias e outros nomes que passaram por lá como Sérgio Ricardo, Paloma Rocha, Renata Seraceni... Neste festival também o cinema ambiental estava sempre presente nas mostras paralelas. Durante todas as 6 edições do Festival de Jericoacoara grandes encontros e grandes debates aconteceram... Está fazendo falta.
No início do ano de 2017 Francis se empenhou em fazer realidade seu grande projeto de longa em ficção, "Angelim". Me convidou para uma parceria. Decupei o roteiro, por sinal muito bom, e fiz o orçamento. Tentou participar de editais, mas a influência de outros grupos sempre fizeram lobbys contra... Pouco depois do último festival nos reunimos para planejar os próximos passos da produção, já o via bem debilitado pela doença que o consumia, mas sempre animado com os próximos trabalhos. Foi a última vez que nos reunimos. Depois alguns papos por telefone e de repente partiu sem avisar... Você faz muita falta amigo. Perdi o contato com o Ceará depois de sua viagem, mas recentemente me senti muito honrado ao receber do nosso amigo em comum Duarte Dias, o convite para o FestFilme e receber uma grande homenagem com a comenda Francis Vale, o que me deixou feliz e emocionado, por ser um dos primeiros a receber tal comenda.
Obrigado pela grande e fiel amizade amigo Francis Vale!

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