Arthur Gadelha
Acho engraçado, e inesquecível, ter recebido um e-mail da produção da 40ª Mostra Internacional de São Paulo perguntando se Francis havia inscrito seu filme na categoria correta do festival. Isso porque Francis tinha 71 anos e seu filme - Trem da Alegria: Arte, Futebol e Ofício (2016) -, estava inscrito no maior evento de cinema do Brasil em “Novos Diretores”, categoria destinada a realizadores que tinham no máximo dois longas-metragens no currículo. Pode um diretor dessa idade estar estreando seu segundo longa? “É isso mesmo, está correto”, respondi no e-mail, eu naquele momento como produtor responsável pela inscrição na Mostra. Deu tudo certo, levamos o documentário para São Paulo - e seria minha primeira vez nesse evento tão imenso, seria minha primeira vez naquela cidade tão grande e que tanta gente falava tanto. Essa foi uma das várias experiências de encontro com o cinema que Francis, e sua arte, me proporcionaram.
Achei aquele e-mail memorável porque, apesar de poucos longas, Francis tinha uma longa carreira de defesa do cinema brasileiro. Além de ter dirigido e participado de curtas-metragens numa época em que produzir cinema era coisa de outro mundo, ele também estava nos bastidores políticos da criação e implementação de leis de incentivo para o audiovisual. Ele fez parte de uma geração que testemunhou a produção de cinema se popularizando e ganhando diferentes telas - e justamente por isso ele mesmo fez por onde criar a maior quantidade de telas possíveis para dar vazão a essas produções cada vez mais intensas. Esteve na fundação do embrionário Cine Ceará, festival de cinema mais antigo do Estado, e tratou de criar o próprio numa praia distante de Fortaleza com ares de paraíso: o cobiçado Festival de Jericoacoara - evento que começou com a alcunha de “Cinema Digital” porque em sua origem ainda havia essa distinção muito clara do que era cinema em película e o que era cinema digitalizado (o antigo vídeo, que não era compreendido como cinema). O que quero dizer com tudo isso é simples: Francis viu essas coisas acontecendo. Francis fez com que essas coisas acontecessem. Francis fez sua parte para garantir o desenvolvimento de produção, exibição e debate do cinema brasileiro, do cinema cearense.
Quando conheci Francis eu já escrevia críticas de cinema, mas era diferente. Quando me convidou para trabalhar no Festival de Jericoacoara, passei a frequentar com muito assiduidade sua casa, e trabalhamos por muito tempo juntos. Em meio a reuniões sobre planilhas, curadorias, identidades visuais, roteiros e produções, conversamos muito sobre cinema brasileiro, sobre sua história, seu estado e seu futuro. Sinto que mudei muito. Ele tinha essa energia de se sentir parte da nossa própria cultura, agente ativo, coisa que eu demorei para sentir também. Eu, como crítico, também fazia parte do cinema brasileiro, tanto quanto o próprio. Foi o ano em que fui júri do Cine Ceará, ano em que fui aceito na Associação Cearense de Críticos de Cinema - e Francis faz parte disso.
Sou grato por tudo, e ele sabe disso.
Arthur Gadelha
Amigo

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