Bel Vale
Nos últimos tempos de efervescência do feminismo, estava repensando as pessoas em minha vida que influenciaram para que eu também tivesse um pensamento libertador. Embora tivesse várias tia à frente de seu tempo, duas avós fortes, uma leoa como mãe, minha surpresa foi perceber que quem mais me estimulou a liberdade nesse mundo foi meu pai. Enquanto na escola meus colegas insistiam que homem não usava rosa, ele foi o primeiro homem que ouvi dizer que gostava dessa cor, sempre tinha camisa social rosa no meio das suas roupas, o que quebrou muito cedo esse estigma para mim. Castigo físico nunca foi com ele, uma surra é algo que só conheço pelo dicionário. Ele sempre lavou louça, nunca cobrou uma diferença de tarefas em casa baseadas no gênero de ninguém. Não me lembro de uma vez que usou de termos como "louca" ou "histérica" para diminuir nenhuma mulher. Frases do tipo "tinha que ser mulher" ou "
"porque é mulher" não faziam parte de seu vocabulário. Sempre votou e admirou as mulheres na política e em outros setores. Inclusive dizia que se a Manuela fosse candidata, ele votaria nela para presidência. Nunca foi de se incomodar com orientação sexual de ninguém, na realidade ele nem ligava pra isso e fazia questão de deixar claro em casa que pra ele não tinha diferença. São essas pequenas e discretas ações do dia a dia que a gente não percebe, mas que fazem total diferença na nossa formação e no aprendizado do que é ser humano. Com todos os seus defeitos e mesmo tendo nascido em 1945, papai tinha mais consciência de igualdade, sociedade e respeito do que muitos dos que nascem hoje terão um dia.
Bel Vale
Filha

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