Érika Maracaba
Afilhada
Meu padrinho era a wikipédia da família. No sentido que em quase qualquer assunto ele já tinha alguma ideia. Só que, ao contrário dessa controversa plataforma, ele não resumia. Não. O Tio Francis me ensinou a me demorar nos conceitos, ideias, impressões. Das nossas conversas eu sempre achava o máximo quando conseguia lhe trazer uma informação nova ou, pelo menos, elegantemente divergente da que ele acreditava. Porque aí ele fechava os olhos eliminando outros estímulos que não a minha voz, repetindo o que eu havia falado, degustando a informação, acomodando-a em si, observando como ela reagia em contato com todo o seu vasto repertório.
Balançava a cabeça e então ou me dizia algo abrindo os olhos, ou me perguntava algo mais, os mantendo fechados... A minha sensação era que assim ele abria ali, onde estivéssemos, um tapete de experiências dialéticas. Como se me chamasse para dançar. E não tinha melhor parceiro nessa dança!
Nós levávamos de um ano ou mais pra conversar e sempre éramos interrompidos muito cedo. Eu só não guardo lamentos por não termos conversado mais vezes e mais demoradamente pois percebo o forte alcance de sua influência em minha vida.
Mais do que ele me disse, o que me levou a perceber, em sua presença, me salvou de uma existência como a da maioria: cheia de informação vazia, em que tudo se passa mas nada lhes toca.

Comentários