Natércia Pontes
Afilhada
Outro dia tive duas meninas. E é claro que foi uma revolução em minha vida.
Muitas coisas foram esclarecidas. Entre tantos tesouros abertos, me dei conta de que um dia também fui bebê. Fiquei curiosa e, na busca de mim bebê, cacei meus álbuns de infância. Encontrei. Eles têm quase quarenta anos, mas ainda estão frescos. Os rostos e os afetos não mudaram tanto, só ganharam camadas gordas de significados. Na foto do meu batizado, por exemplo, lá está meu padrinho alto: Francis Vale, camisa azul-celeste, me olhando com ternura do banco da igreja. Outro dia ele também me olhava com ternura, sentado à mesa de sua casa, comendo pão sovado, bebendo café, suco. Esta presença firme do meu padrinho sempre me foi inteira.
Quando mais precisei ele estava lá. Quando não precisei ele não estava. Mas estava. Sempre muito mais alto do que eu e firme. A firmeza do olhar e os gestos elegantes do meu padrinho lembravam muito meu pai. Acho que é pra isso que temos padrinhos, para que eles nos olhem docemente, para sempre, lá do alto do céu.

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